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Literatura humaniza e leva à reflexão, diz Itamar Vieira Junior

ResumoItamar Vieira Junior, escritor baiano, encerra a Trilogia da Terra com o romance Coração sem Medo. A obra aborda desterrados e o desaparecimento de um filho. Para o autor, a literatura humaniza e provoca reflexão, sem oferecer respostas prontas. O livro consolida a trajetória literária de Vieira Junior, reconhecido por retratar conflitos sociais e existenciais do Brasil profundo.

No livro Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior encerra a Trilogia da Terra. A obra fala de desterrados e do desaparecimento de um filho. Para o escritor, a literatura humaniza e provoca reflexão, mesmo sem dar respostas.

Ariovaldo Setúbal
Ariovaldo Setúbal Crítico de cinema clássico · 10 de agosto de 2026
Literatura humaniza e leva à reflexão, diz Itamar Vieira Junior
8.3/10
VereditoNo livro Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior encerra a Trilogia da Terra. A obra fala de desterrados e do desaparecimento de um filho. Para o escritor, a literatura humaniza e provoca reflexão, mesmo sem dar respostas.

A cena que abre o novo livro de Itamar Vieira Junior

Rita Preta é caixa de supermercado em Salvador. Tem três filhos e toca a vida como pode. Um dia, um deles desaparece. A cena se grava na memória: a mãe que percebe, aos poucos, que a ausência não foi um desentendimento passageiro, mas algo mais profundo, enraizado em uma história que vem de muito tempo antes.

Este é o ponto de partida de Coração sem Medo, o novo romance de Itamar Vieira Junior, lançado em 2026. Com ele, o escritor baiano encerra a Trilogia da Terra, iniciada com o sucesso Torto Arado e seguida por Salvar o Fogo. A obra transporta a ação do campo para a cidade, mas mantém a preocupação central: o direito à terra, agora lido também como direito ao corpo e à vida.

O que muda na Trilogia da Terra

Em Torto Arado, a terra é território e pertencimento. Em Salvar o Fogo, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. Em Coração sem Medo, a história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea, como o próprio autor explicou em entrevista à Agência Brasil.

A mudança de cenário é significativa. Pela primeira vez na trilogia, a ação principal não se passa no campo. Rita Preta sai do interior da Bahia para viver na capital, fugindo de um conflito fundiário. Em Salvador, descobre que a cidade também é um território desigual, marcado por disputas.

"Eu sei que muitos chegaram aqui e a história da Rita é semelhante à história de muitos que aportaram em Salvador para viver", disse o escritor durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre, lotado, no Largo do Pelourinho.

O drama do desaparecimento: números que doem

Embora seja ficcional, o drama de Rita Preta reflete uma realidade brasileira cruel. Só no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia. Em todo o ano anterior, foram 85.232 casos, uma média de 234 desaparecimentos diários.

Os dados são do Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça. O próprio painel alerta que os números podem não refletir totalmente a realidade, já que muitos casos sequer são notificados às autoridades.

Itamar Vieira Junior reconhece que o desaparecimento atinge todas as classes sociais. Mas observa que a dor se concentra, com mais força, nas mães que vivem nas periferias brasileiras, aquelas que mais carecem de políticas públicas do Estado.

"Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta", afirmou o escritor.

A literatura como caminho para a reflexão

Para Itamar, a literatura tem uma capacidade grande de humanizar. Histórias como a de Rita Preta aparecem muitas vezes na imprensa, mas de forma superficial. Quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte, disse ele.

"A arte tem o poder de devolver a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado", completou.

Mas essa mesma arte não é capaz de fornecer respostas. A tarefa da literatura, segundo o autor, continua sendo a de provocar incômodos ou reflexões sobre o fato.

"Tudo que a arte não faz é dar respostas. Ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, e é a partir do incômodo que as mudanças vêm", afirmou.

Essa visão explica o tom do novo romance. Rita Preta não encontra soluções fáceis. Ela busca, investiga, enfrenta uma cidade cheia de contradições. A narrativa não oferece um final redentor, mas convida o leitor a olhar para o problema com outros olhos.

Salvador como personagem

Em Coração sem Medo, Salvador ganha protagonismo. A cidade aparece como um território de chegadas: povos originários, invasão europeia, diáspora africana, êxodo rural. No século 20, em particular, chega muita gente do interior da Bahia, empurrada pelo acirramento dos conflitos fundiários ou pela esperança na vida urbana.

"A gente pensa em Salvador, nessa riqueza cultural, nessas contradições históricas e parece que tudo já nasceu e já aconteceu aqui. Mas essa cidade cresce e acontece a partir de muitas chegadas", disse Itamar ao público da Flipelô.

Rita Preta é uma dessas chegadas. Ela escapa de um conflito no campo, mas descobre que a cidade também vive em disputas. "A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira", observa o autor.

O corpo como território

Uma das ideias centrais do romance é a noção de que o corpo também é um território. Quando o filho de Rita desaparece, esse corpo, que é um território, não é muito diferente da terra em disputa em Torto Arado, nem da terra que é patrimônio de uma igreja em Salvar o Fogo.

"Se tiraram ele de Rita é porque ainda existem corpos e ainda existem territórios que não são cuidados, que não são integrados e que não estão vivos porque essa violência histórica nos atravessa", afirmou o escritor.

Essa terra que une os três livros pode ser entendida como um lugar físico, uma memória ancestral ou até mesmo como aquilo que um povo carrega consigo quando já lhe arrancaram a própria terra.

O que observar ao ler Coração sem Medo

Vale assistir com calma, ou melhor, vale ler com atenção. Observe como Itamar Vieira Junior constrói a jornada de Rita Preta em meio a uma Salvador que é ao mesmo tempo acolhedora e violenta. Perceba como a história da personagem se conecta com a história de tantas mulheres reais que buscam por seus filhos desaparecidos.

Repare também na linguagem: o autor mantém a prosa poética de Torto Arado, mas agora aplicada ao cenário urbano. A cidade não é apenas pano de fundo, é parte da narrativa, com suas contradições e sua riqueza cultural.

Se você leu os outros livros da trilogia, vai notar como as histórias se comunicam. Se está começando por este, prepare-se para uma leitura que incomoda e provoca reflexão, como o próprio autor deseja.

Perguntas Frequentes

Coração sem Medo é o último livro da Trilogia da Terra?

Sim. Coração sem Medo encerra a Trilogia da Terra, que começou com Torto Arado e passou por Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Junior.

Qual é o tema principal de Coração sem Medo?

O livro aborda o desaparecimento de um filho, possivelmente vítima de violência, e a busca de uma mãe por justiça. Também trata do direito à terra e do deslocamento do campo para a cidade.

Quem é Rita Preta?

Rita Preta é a protagonista do romance. Ela é caixa de supermercado em Salvador, mãe de três filhos, e vive o drama do desaparecimento de um deles.

A história de Rita Preta é baseada em fatos reais?

A história é ficcional, mas reflete dados reais de desaparecimento de pessoas no Brasil. No primeiro semestre de 2026, foram 43.828 casos, segundo o Sinesp.

Onde Itamar Vieira Junior apresentou o livro?

O escritor falou sobre o novo romance na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, em um palco ao ar livre no Largo do Pelourinho.

  • A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

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