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Flipelô lança livro com cartas entre Jorge Amado e Erico Verissimo

ResumoA Flipelô lançou o livro de correspondências entre Jorge Amado e Erico Verissimo, reunindo cartas trocadas ao longo de mais de quatro décadas. A obra, organizada por Paloma Jorge Amado e Bete Capinan, apresenta a amizade literária e os diálogos pessoais entre os dois escritores brasileiros. O lançamento ocorreu durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho, em Salvador.

Correspondências de mais de quatro décadas entre Jorge Amado e Erico Verissimo ganham livro, lançado na Flipelô. Organização é de Paloma Jorge Amado e Bete Capinan.

Ariovaldo Setúbal
Ariovaldo Setúbal Crítico de cinema clássico · 10 de agosto de 2026
Flipelô lança livro com cartas entre Jorge Amado e Erico Verissimo
6.5/10
VereditoCorrespondências de mais de quatro décadas entre Jorge Amado e Erico Verissimo ganham livro, lançado na Flipelô. Organização é de Paloma Jorge Amado e Bete Capinan.

Uma amizade de papel, quatro décadas de conversa

A tarde de quinta-feira (07) guarda uma cena que se grava na memória de quem ama literatura brasileira. Na Casa Motiva, em Salvador, dentro da programação da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), foi lançado o livro Cartas: Jorge Amado - Erico Verissimo. Páginas que carregam mais de quatro décadas de correspondência entre dois gigantes das letras nacionais.

O livro integra a coleção Um gesto de amizade, da Fundação Casa de Jorge Amado. A mesma coleção já trouxe ao público títulos como Com o mar por meio: Uma amizade em cartas, que reúne a troca entre Jorge Amado e o escritor português José Saramago, e Cartas: Dias Gomes - Jorge Amado, com o diálogo entre Amado e o dramaturgo brasileiro. Agora, é a vez de Erico Verissimo, autor de obras como Olhai os Lírios do Campo e O Tempo e o Vento.

O que este livro revela

A coletânea foi organizada por Paloma Jorge Amado, escritora e filha de Jorge Amado, e por Bete Capinan. Reúne documentos históricos, memórias afetivas e testemunhos literários. A edição traz ainda um texto recuperado de Luís Fernando Verissimo e orelha assinada por Fernanda Verissimo, neta de Erico Verissimo e filha de Luís Fernando Verissimo.

Em entrevista à Agência Brasil durante o lançamento, Fernanda Verissimo revelou o que mais a surpreendeu nas cartas: o quanto os dois eram leitores um do outro. "E como eles falavam de literatura com muito conhecimento, e não só da literatura um do outro, mas da literatura do Brasil", disse.

Para Paloma Jorge Amado, o livro é fundamental para quem gosta de literatura brasileira. Ela contou que as cartas começam nos anos 30 e vão até a morte de Erico, em 1975. "Então você tem, por exemplo, o papai contando pro Érico que está escrevendo Jubiabá e ele mostra cada parte do livro, qual o esquema, uma coisa prévia de Jubiabá, que foi um livro fundamental na literatura de papai. O mesmo acontece com Érico contando os livros que ele está fazendo. É lindo", disse à reportagem.

Uma brincadeira que virou história

Uma das curiosidades dessa troca, revelou Paloma, é o fato de Jorge Amado sempre chamar o filho de Erico Verissimo, o também escritor Luís Fernando Verissimo (1936-2025), pelo nome de João. "Eu estava agora mesmo abrindo o livro e há um trecho em que ele escreve Joãozinho, entre aspas, que é o Luís Fernando. O papai chamava o Luís Fernando de João, dizendo: 'Mas ele tem cara de João, não pode ter o nome de Luís Fernando'. E o Erico respondia: 'O Joãozinho, você nem acredita, está escrevendo o fino. É cada crônica maravilhosa para o Zero Hora!'", contou.

Outro momento interessante, acrescentou Paloma, trata de uma viagem de Jorge Amado à Itália. Numa das cartas, ele conta ao amigo que, passeando, passou em frente a uma livraria e viu uma plaquinha dizendo que Jorge era o mais importante escritor brasileiro. Mas isso não durou muito. Logo em seguida, passou em frente a outra livraria, onde outra plaquinha dizia que Erico Verissimo era o mais importante escritor brasileiro.

"Aí mamãe [a também escritora Zélia Gattai] fotografou e o papai disse: 'Érico, por cinco minutos eu fui mais importante. Depois é você, e não tem para mais ninguém'. Era uma amizade assim divertida, estavam pensando um no outro o tempo todo", disse.

Política, censura e liberdade

Nestas cartas, havia também uma troca de conselhos e reflexões sobre política, cultura e sociedade. Os dois tratavam sobre os impactos do autoritarismo e da necessidade permanente de defesa da liberdade de expressão e do pensamento crítico. "Desde o início, nas primeiras cartas que eles trocam, havia comentários sobre o Estado Novo. E isso fica ainda mais interessante e mais forte ao final, nos anos 70, durante a ditadura, quando eles se unem para combater a censura e fazer frente à censura prévia. É bom lembrar também da importância dos dois como intelectuais públicos", destacou Fernanda.

Um acervo que pede cautela

Todo o acervo de cartas que compõem essa coleção está sob a guarda da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador. É um material vastíssimo, de quantidade total ainda desconhecida. São caixas e caixas de correspondências que o escritor baiano trocou com escritores, políticos, artistas e com Zélia Gattai, com quem foi casado.

Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, instituição responsável pela realização da Flipelô, explicou que o acervo é imenso, mas precisa ser trabalhado com muita cautela. "Por tudo o que envolve os conteúdos e pela própria declaração de Jorge Amado, que não gostaria que isso fosse aberto indiscriminadamente. A Paloma Jorge Amado tem trabalhado com a gente na pesquisa sobre os conteúdos das cartas, fazendo essa junção entre Jorge Amado receptor e o Jorge Amado escrevente", disse.

O acervo inclui bilhetes que eram guardados por ele, que sabia do valor do material. "Ele dizia que aprendeu três coisas importantes na vida. Uma é: nunca chegue atrasado, e ele era muito pontual. A segunda é: nunca deixe de responder uma correspondência. Então você pode imaginar a quantidade de cartas que o Jorge Amado guardou e que ele escreveu. Terceiro: quando você quer alguma coisa, insista, insista e insista", acrescentou Angela. A fundação trabalha para buscar também cartas que estão fora do acervo, já que tem as que ele recebeu, mas precisa buscar as que ele mandou.

O que observar ao assistir

Vale assistir com calma, se você for a Salvador e puder ver o livro. Observe como a amizade entre os dois escritores atravessa décadas sem perder o afeto, mesmo em meio a divergências políticas e literárias. Repare na delicadeza com que Paloma Jorge Amado e Bete Capinan organizaram essa correspondência, dando ao leitor a chance de ver dois mestres da literatura brasileira em sua intimidade criativa.

A Flipelô segue com programação, e mais informações podem ser acessadas por meio do site oficial do evento. A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

Perguntas Frequentes

Quem organizou o livro de cartas entre Jorge Amado e Erico Verissimo?

A organização é de Paloma Jorge Amado, escritora e filha de Jorge Amado, e de Bete Capinan.

Onde foi o lançamento do livro?

O lançamento ocorreu na tarde de quinta-feira (07), na Casa Motiva, em Salvador, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô).

O que a coleção Um gesto de amizade já publicou?

A coleção já publicou Com o mar por meio: Uma amizade em cartas, com a correspondência entre Jorge Amado e José Saramago, e Cartas: Dias Gomes - Jorge Amado.

Onde está o acervo de cartas de Jorge Amado?

O acervo está sob a guarda da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador.

O que as cartas revelam sobre a relação entre os dois escritores?

As cartas mostram uma relação muito afetuosa, com troca de leituras, conselhos e reflexões sobre política, cultura e sociedade, além de momentos de humor e cumplicidade.

As cartas abordam temas políticos?

Sim, as cartas comentam desde o Estado Novo até a ditadura nos anos 70, quando os dois se uniram para combater a censura prévia.

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