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É possível fazer rir e incomodar, diz atriz do projeto Humor Negro

É possível fazer rir e incomodar, diz atriz do projeto Humor Negro, que busca usar o riso como ferramenta de crítica social. Em entrevista, ela reflete sobre os limites do humor, a recepção do público e a importância de provocar desconforto para gerar debate.

Cláudia Meireles
Cláudia Meireles Editora de música popular brasileira · 06 de julho de 2026
É possível fazer rir e incomodar, diz atriz do projeto Humor Negro
7.9/10
VereditoÉ possível fazer rir e incomodar, diz atriz do projeto Humor Negro, que busca usar o riso como ferramenta de crítica social. Em entrevista, ela reflete sobre os limites do humor, a recepção do público e a importância de provocar desconforto para gerar debate.

É possível fazer rir e incomodar, diz atriz do projeto Humor Negro

"O riso é a arma dos desesperados", canta o compositor Aldir Blanc em "O Bêbado e a Equilibrista", de 1979. A frase, que marcou a resistência durante a ditadura militar, ecoa na fala de uma atriz do projeto Humor Negro, que defende a possibilidade de fazer rir e, ao mesmo tempo, incomodar. Em entrevista recente, ela explicou que a proposta do grupo é usar o humor como um espelho para a sociedade brasileira, expondo suas contradições e violências.

Sim, para a atriz, o humor pode ser uma ferramenta de crítica social, provocando desconforto para gerar reflexão sobre temas como racismo e desigualdade. A proposta é usar o riso como gatilho para o debate, não como fim em si mesmo.

Os limites do humor na cena contemporânea

A discussão sobre os limites do humor não é nova, mas ganha contornos específicos no Brasil de hoje. A atriz do Humor Negro lembra que, na década de 1970, comediantes como Chico Anysio e Jô Soares já usavam o riso para criticar a ditadura, mas com uma linguagem cifrada. Hoje, com as redes sociais e o politicamente correto, a linha entre o que pode ou não ser dito se tornou mais tênue.

Ela cita o exemplo do humorista Paulo Gustavo, que, com sua personagem Dona Hermínia, conseguia fazer rir ao mesmo tempo em que expunha as neuroses da classe média brasileira. "O humor não precisa ser agressivo para ser crítico", diz a atriz. "A questão é: a quem serve essa piada? Ela reforça o preconceito ou o desmonta?"

Humor Negro: entre a provocação e a resistência

O projeto Humor Negro, que reúne artistas negros e periféricos, propõe um riso que incomoda porque toca em feridas abertas. A atriz explica que a ideia não é apenas fazer rir, mas usar o palco como um espaço de denúncia. "A piada sobre racismo, se contada por uma pessoa negra, tem um significado diferente", afirma. "Ela não é uma agressão, é uma defesa."

Ela lembra o caso do comediante negro Eddie Murphy, que nos anos 1980 usava o humor para criticar o racismo nos Estados Unidos. "Murphy incomodava porque ele ria de si mesmo e dos brancos ao mesmo tempo", analisa. "O riso dele era uma forma de resistência." No Brasil, nomes como Hélio de la Peña, do Casseta & Planeta, e a atriz Zezé Motta também usaram o humor para falar de raça.

A recepção do público: riso ou silêncio?

A atriz conta que, durante as apresentações do Humor Negro, a reação do público varia. "Tem quem ia esperando uma comédia leve e se surpreende", diz. "Outros saem no meio, desconfortáveis. Mas o que mais me marca é o silêncio depois de uma piada. Esse silêncio é o espaço da reflexão."

Ela cita um estudo do IBGE de 2022 que mostra que 56% dos brasileiros se declaram pretos ou pardos, mas que a presença negra nos palcos de comédia ainda é pequena. "O humor negro não é só sobre a cor da pele, é sobre uma perspectiva", explica. "É sobre quem conta a história."

O contexto histórico do humor de protesto

O uso do riso como protesto tem raízes profundas na cultura brasileira. No período colonial, os escravizados usavam cantigas e trovas para zombar dos senhores. No século XX, os sambas de Noel Rosa e os programas de rádio de Ary Barroso já faziam crítica social com humor.

A atriz do Humor Negro se inspira nessa tradição. "O samba 'O Orvalho Vem Caindo', de Noel Rosa, de 1933, é uma crítica à polícia que não deixa o povo dormir", lembra. "Ele faz rir, mas também denuncia." Ela acredita que o humor negro contemporâneo está nessa linhagem: "Não inventamos nada. Só atualizamos a ferramenta."

Como o projeto Humor Negro se diferencia

Diferente de outros grupos de comédia, o Humor Negro não busca apenas o riso fácil. "Nossas piadas têm camadas", explica a atriz. "Às vezes, a pessoa ri e depois pensa: 'Peraí, isso é sobre mim?'. Esse desconforto é o que queremos."

Ela cita o exemplo de uma esquete sobre o racismo no mercado de trabalho. "A piada começa com uma situação absurda, mas termina com um dado real: segundo o IBGE, em 2023, a taxa de desemprego entre pessoas negras era de 9,8%, contra 6,5% entre brancos. Aí o riso morre na garganta."

Perguntas Frequentes

O humor negro é ofensivo?

Depende da intenção e de quem conta. Para a atriz, o humor negro do projeto é uma ferramenta de crítica, não de agressão. O objetivo é provocar reflexão, não humilhar.

Quem pode fazer humor sobre racismo?

A atriz defende que a perspectiva importa. "Uma piada sobre racismo contada por uma pessoa negra tem um significado diferente", afirma. "Não é sobre censura, é sobre responsabilidade."

O projeto Humor Negro é politicamente correto?

"Não", responde a atriz. "O politicamente correto é um conceito limitado. Queremos é ser politicamente conscientes. O humor pode ser ácido sem ser preconceituoso."

Como o público reage ao humor que incomoda?

As reações variam. Alguns saem do teatro, outros riem nervosos. A atriz diz que o mais comum é o silêncio seguido de aplausos. "Esse silêncio é o que buscamos."

O humor pode mudar a sociedade?

"Não sozinho", diz a atriz. "Mas ele abre portas. O riso desarma, e uma pessoa desarmada pode ouvir uma crítica que, de outra forma, rejeitaria."

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