"Um Defeito de Cor não é uma contra-história", diz Ana Maria Gonçalves
Em entrevista, Ana Maria Gonçalves afirma que "Um Defeito de Cor não é uma contra-história", mas uma narrativa que reivindica o lugar da experiência negra na literatura brasileira. A autora reflete sobre os limites do termo e o peso da palavra.
"Um Defeito de Cor não é uma contra-história", diz Ana Maria Gonçalves
"Não se trata de uma contra-história. Trata-se de uma história que sempre existiu, mas foi silenciada." A frase, dita por Ana Maria Gonçalves em entrevista recente, condensa a força de seu romance "Um Defeito de Cor" (2006, Editora Record). Publicado há quase vinte anos, o livro de mais de 950 páginas acompanha a trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada no Brasil, da Bahia ao Maranhão, e sua luta por liberdade e reconhecimento. A declaração da autora ecoa um debate caro à crítica literária contemporânea: o lugar da narrativa negra na historiografia brasileira.
Para Gonçalves, classificar a obra como "contra-história" implicaria aceitar que a história oficial é a única referência, e que seu romance seria uma reação, um desvio. "Não é uma resposta à história, é a história", disse. O termo, cunhado por alguns estudiosos para designar narrativas que subvertem o discurso hegemônico, carrega, no entendimento da autora, uma marca de oposição que não se aplica. "Kehinde não existe para negar a história dos vencedores. Ela existe porque sua história é tão verdadeira quanto qualquer outra."
O contexto de criação
Ana Maria Gonçalves começou a escrever "Um Defeito de Cor" em 2003, após uma viagem ao Benin, onde encontrou documentos sobre a venda de uma mulher africana para o Brasil. A obra, que mistura ficção e pesquisa histórica, levou três anos para ser concluída. A autora consultou arquivos do século XIX, registros de navios negreiros e cartas de alforria para reconstituir a vida de Kehinde, personagem inspirada em uma figura real, uma mulher que teria sido vendida ainda criança e, já liberta, retornou à África.
O romance foi finalista do Prêmio Jabuti em 2007 e, desde então, ganhou leitores no Brasil e no exterior. Em 2024, uma adaptação para o cinema foi anunciada, com direção de Joel Zito Araújo. A obra também é estudada em universidades como exemplo de literatura afro-brasileira, embora a autora evite o rótulo. "Não escrevi para representar uma categoria. Escrevi porque aquela mulher precisava ser ouvida."
O debate sobre o termo "contra-história"
A crítica literária brasileira, em especial a partir dos anos 2000, passou a usar "contra-história" para descrever obras que desafiam a narrativa oficial, como "O Avesso da Pele", de Jeferson Tenório, ou "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. O termo tem origem no pensamento de Michel Foucault, que o empregou para designar discursos que subvertem a ordem do poder. No Brasil, ganhou força com os estudos pós-coloniais.
Gonçalves, no entanto, vê limites na aplicação do conceito. "Contra-história pressupõe uma guerra de versões. Mas a história de Kehinde não disputa com a de ninguém. Ela simplesmente existe. O que falta é espaço para que ela seja contada sem que precise se justificar." A autora sugere que o termo, embora útil para a academia, pode reduzir a complexidade da obra a uma mera reação.
A recepção da obra
Desde o lançamento, "Um Defeito de Cor" provocou debates sobre racismo, memória e identidade. Leitores negros, em particular, relataram se reconhecer na trajetória de Kehinde, uma mulher que perde o filho, luta pela liberdade e, ao final, retorna à África. O livro é frequentemente recomendado por professores de literatura como leitura obrigatória para compreender a formação do Brasil.
Em 2023, a obra ganhou uma edição comemorativa de 15 anos, com prefácio da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que escreveu: "Este romance não é apenas ficção; é um documento de um Brasil que teimamos em não ver."
O que a autora diz sobre o futuro
Ana Maria Gonçalves prepara um novo romance, ainda sem título, que deve ser lançado em 2027. A obra, segundo ela, também aborda a experiência negra no Brasil, mas em um contexto urbano contemporâneo. "Não vou deixar de escrever sobre o que me move. A história de Kehinde me ensinou que toda vida merece ser contada."
Perguntas Frequentes
O que significa "Um Defeito de Cor não é uma contra-história"?
Para Ana Maria Gonçalves, o termo "contra-história" sugere uma oposição à história oficial, mas seu romance não se coloca contra, ele afirma a existência de uma narrativa que sempre esteve ali, apenas silenciada.
Qual é a história de "Um Defeito de Cor"?
O romance narra a vida de Kehinde, uma mulher africana escravizada no Brasil do século XIX, desde a infância na atual Nigéria até a velhice, após retornar à África.
Quando foi publicado "Um Defeito de Cor"?
O livro foi lançado em 2006 pela Editora Record e finalista do Prêmio Jabuti em 2007.
Quem é Ana Maria Gonçalves?
Ana Maria Gonçalves é escritora brasileira, autora de "Um Defeito de Cor" e de outros romances, como "Ao Vivo" (2018). Nasceu em Ibiá, Minas Gerais, em 1970.
O livro vai virar filme?
Sim, uma adaptação para o cinema está em desenvolvimento, com direção de Joel Zito Araújo e previsão de lançamento para 2027.