Mostra fotográfica em Brasília resgata luta de quilombolas em GO
Uma exposição fotográfica no Museu Nacional da República, em Brasília, reúne imagens que documentam a história e a resistência de quilombolas em Goiás. As fotos, de arquivos pessoais e de artistas contemporâneos, revelam um capítulo pouco conhecido da luta por terra e identidade
Mostra fotográfica em Brasília resgata luta de quilombolas em GO
Uma exposição fotográfica no Museu Nacional da República, em Brasília, reúne imagens que documentam a história e a resistência de quilombolas em Goiás. As fotos, de arquivos pessoais e de artistas contemporâneos, revelam um capítulo pouco conhecido da luta por terra e identidade no Cerrado. A mostra 'Territórios de Resistência', em cartaz até 30 de junho, reúne 80 imagens históricas e contemporâneas que narram a resistência de comunidades quilombolas goianas. A curadoria é do fotógrafo João Roberto Ripper, com acervo do Instituto Quilombo Kalunga e do Museu do Índio.
A exposição que revela a história das comunidades quilombolas em Goiás
Repare na primeira foto: um homem idoso, de pé, diante de uma casa de pau a pique. Ele segura uma enxada. A imagem, dos anos 1970, é do fotógrafo goiano Luiz Carlos Barreto. Mostra seu Joaquim, líder da comunidade Kalunga, que vive há gerações na região do Vão do Paranã, no nordeste de Goiás. A exposição começa com essa foto para dizer: a história começa com quem viveu.
A mostra reúne imagens de cinco comunidades quilombolas de Goiás: Kalunga, Córrego do Ouro, Mesquita, Lageado e Pombal. São cerca de 80 fotografias, entre preto e branco e coloridas, que cobrem desde os anos 1950 até 2025. A curadoria de João Roberto Ripper, fotógrafo conhecido por documentar comunidades tradicionais, organizou o acervo em três núcleos: o território, o trabalho e a festa.
"A fotografia é um testemunho do que existe, mas também do que resiste", disse Ripper em entrevista ao Correio Braziliense em maio de 2025.
O que as imagens contam sobre a resistência quilombola
Cada foto da mostra carrega uma história de luta. Uma das mais impactantes mostra uma mulher com uma criança no colo, em frente a uma placa de "Propriedade Particular". A imagem, de 1985, foi feita pelo fotógrafo do INCRA durante o processo de reconhecimento do território Kalunga. A placa simboliza o conflito: a terra que os quilombolas ocupavam há séculos era considerada devoluta pelo governo. A regularização fundiária só veio em 1991, com a criação do Sítio Histórico Kalunga.
A exposição também mostra imagens contemporâneas. O fotógrafo goiano Pedro David registrou, em 2024, a festa do Divino Espírito Santo na comunidade do Córrego do Ouro. A festa, que acontece há mais de 200 anos, reúne dança, música e comida típica. A foto mostra um grupo de crianças com lanternas de papel, à noite, iluminando o terreiro da igreja.
A curadoria de João Roberto Ripper e o acervo do Instituto Quilombo Kalunga
João Roberto Ripper é um dos principais documentaristas de comunidades tradicionais do Brasil. Seu acervo, que inclui mais de 50 mil imagens, está sob guarda do Instituto Moreira Salles desde 2020. Para a mostra, Ripper selecionou imagens de dois arquivos: o do Instituto Quilombo Kalunga, que reúne fotos de moradores e pesquisadores, e o do Museu do Índio, que tem registros de antropólogos que visitaram a região nos anos 1970.
"O acervo do Instituto Quilombo Kalunga tem mais de 10 mil imagens digitais, a maioria feita pelos próprios quilombolas", explica a coordenadora do instituto, Maria das Graças, em texto do catálogo da exposição.
A curadoria buscou equilibrar o olhar externo (dos fotógrafos) com o olhar interno (dos quilombolas). Uma das séries mais emocionantes é a de autorretratos feitos por jovens da comunidade Kalunga em 2023, durante uma oficina de fotografia. As imagens mostram orgulho e pertencimento: um rapaz com a camisa do time de futebol local, uma menina com a avó, um grupo de amigos na beira do rio.
A luta por terra e identidade no Cerrado goiano
A exposição não esconde os conflitos. Uma das salas é dedicada à luta pela titulação das terras. Em Goiás, as comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares somam 38, mas apenas 12 têm o território titulado. A mostra exibe documentos históricos, como a escritura de doação de terras à comunidade de Mesquita, de 1854, e fotografias de manifestações recentes, como a ocupação do INCRA em Goiânia em 2022.
Segundo a Fundação Cultural Palmares, Goiás tem 38 comunidades quilombolas certificadas, das quais 12 têm território titulado.
A mostra também aborda a identidade. Uma série de retratos em preto e branco mostra moradores de diferentes comunidades segurando objetos que representam sua história: um violão, uma colher de pau, uma foto de família. As imagens foram feitas pelo fotógrafo goiano Caco Vidal em 2024. Cada retrato é acompanhado de um depoimento em áudio, que o visitante pode ouvir com fones.
Visitação e detalhes práticos da mostra
A exposição "Territórios de Resistência" está em cartaz no Museu Nacional da República, em Brasília, até 30 de junho de 2025. A entrada é gratuita. O museu funciona de terça a domingo, das 9h às 18h. A mostra ocupa duas salas do térreo, com capacidade para 80 pessoas por vez.
Para quem não puder ir a Brasília, o Instituto Quilombo Kalunga disponibiliza um tour virtual no site tour virtual exposição quilombola. O acervo completo das fotografias pode ser consultado no site do Instituto Moreira Salles.
Perguntas Frequentes
Onde fica a exposição fotográfica sobre quilombolas em Brasília?
A mostra está no Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A entrada é gratuita.
Até quando fica a exposição?
Até 30 de junho de 2025, de terça a domingo, das 9h às 18h.
Quem é o curador da mostra?
O curador é o fotógrafo João Roberto Ripper, especializado em comunidades tradicionais.
Quantas comunidades quilombolas são retratadas?
São cinco comunidades: Kalunga, Córrego do Ouro, Mesquita, Lageado e Pombal.
Tem como visitar virtualmente?
Sim, o Instituto Quilombo Kalunga oferece um tour virtual no site.